domingo, 22 de janeiro de 2012

Partos domiciliar desassistido

Decidí começar essa sessão porque vejo muitas mães por aí cairem numa cesárea porque o parto "não foi redondinho" (aquele parto em que a gestante dilata 1cm por hora, a bolsa "não estoura antes do tempo" e tudo corre como o "esperado") e gostaria de desmistificar alguns fatos, tipo o cordão assassino, a bolsa rota prolongada, pós-datismo e outros. Ao longo das postagens, vocês vão ler relatos de parto de amigas minhas que tiveram parto um pouco fora do comum. Espero que gostem!  



Relato de Parto – Nosso PDD

Um dia, por volta de Fevereiro, sonhei com um moço. Eu me via aqui em casa, com o Leandro e o tal moço. Ele pedia desesperado para que eu o ajudasse, já que tinha prometido fazer isso antes e não tinha cumprido. Lembro que eu respondi que, se tinha prometido, eu faria.

Em Abril descobri que estava grávida, de novo. Sabia antes de fazer o(s) teste(s) de farmácia. Sabia, mas não queria acreditar. A Gabriela tinha pouco mais de 9 meses, era um bebê. As coisas agora estavam no lugar e outro bebê beirava a loucura. Com 1 dia de atraso, fui fazer o teste. Positivo. Não, não é verdade. Deixei o xixi ali tempo demais, claro que ia aparecer a outra linha. Saio pra comprar outro. Positivo de novo. Não, ta muito fraca essa segunda linha, pode não ser. O Lê me olhava com uma cara de ‘quem você quer enganar?’. Pois é, quem? Fiquei ainda meio atônita, sentada no vaso, com os dois testes na mão, a Gabi sentada na porta do banheiro e o Leandro mandando torpedo para a mãe, para contar.

O começo da gravidez foi complicado. Um misto de sentimentos: vergonha, medo, felicidade, vergonha, sensação de ter feito algo errado. E quanto mais eu transparecia isso, mais dava margem para os olhares, comentários, palpites. Enquanto a gente não encara de frente, ficamos à mercê dos outros e do que eles pensam. E como doía.

Passado o susto, passada a vergonha, situação admitida, tudo começou a fluir. Uma gestação tranqüila, saudável, sem nenhuma complicação. Depois da gravidez da Gabriela, já sabia o caminho: fazer o pré-natal com um GO uni-duni-tê do convênio, preparar para ouvir algumas besteiras e, no final, ir para a Casa de Parto novamente. Lembro que, depois que a Gabriela nasceu, eu disse que o meu próximo nasceria em casa. Mas precisaríamos de uma poupança-parto para isso. De uma gravidez planejada, o que não era o caso. Então me conformei com a idéia de ir para a CPS (casa de parto Sapopemba). Não acho que seja um lugar ruim; do contrário, indico para todo mundo, mas conheço as limitações e sei que o meu trabalho de parto e parto poderia fluir melhor em outras condições, melhor do que tinha sido o da Gabriela.

Pesquisando sobre parto domiciliar, encontrei sem querer um grupo de mulheres que decidiram ter seus filhos sozinhas, só com o marido, ou uma amiga e mesmo com os filhos mais novos por perto. ‘Essas sim são doidas!’, foi o que pensei. Mas achei interessante. É um movimento grande nos EUA, que bate de frente com o sistema obstétrico que existe por aqui também. Com a grande diferença de que lá há muito mais estrutura para que isso seja feito (testes de sangue, de urina, de glicose para serem comprados facilmente na farmácia, fácil aceitação de uma transferência no hospital, muitas opções de ervas, homeopatias e afins para ajudar durante a gravidez e parto), coisa que não há por aqui. Mas, mesmo assim, encontrei 3 brasileiras que tiveram seus partos desassistidos e troquei muitas palavras com elas. E cada dia mais visualizava que isso é possível. Bebês nascem, oras! Nós parimos! O mundo seguiu assim por muito tempo e eu acredito plenamente que possa continuar assim.

Claro que o fator dinheiro pesou também. O valor das parteiras, para gente, naquele momento, faria muita falta. São dois bebês agora. Precisávamos de um carro. Precisávamos guardar dinheiro para mudar assim que o aluguel vencesse, porque no nosso apartamento seria impossível criar dois. Apesar de tudo, consegui convencer o Leandro do quanto seria importante para mim uma outra experiência de parto e de nascimento; o que eu só conseguiria em casa. Fomos ao encontro de uma parteira, conversamos, tiramos dúvidas e, saindo de lá, no caminho pra casa, o Leandro me fala: ‘Oras, o que ela vai fazer, nós também podemos fazer!’. E daí ficamos combinados: nós faríamos o parto. E estávamos dispostos a bancar a decisão, com o final esperado (mamãe e bebê saudáveis) ou não.

Nunca li tanto sobre obstetrícia na vida. Nunca vi tanto vídeo de parto. Nunca li tanto relato de parto (inclusive os de partos que deram errado). Eu precisava de toda e qualquer informação que estivesse disponível, para estar segura. O Leandro, ao longo do tempo, também se convenceu de que bebês sabem nascer, que mulheres sabem parir e que intercorrências acontecem, seja em casa ou no hospital. Estar em um ambiente hospitalar não nos garante um parto saudável; assim como estar em casa não significa risco iminente. São escolhas que cabem ao casal (principalmente à mulher, em minha opinião); escolhas que devem ser pensadas e pesadas.

Depois de um alarme falso às 37+2 (madrugada inteira com contrações fortes e ritmadas, que pararam ao nascer do Sol), minha ansiedade foi à mil. Já estava cansada, com todos os incômodos do mundo, a Gabriela exalando energia, Leandro no final do ano letivo, no limite da paciência. Impossível não comparar uma gestação à outra: Gabriela nasceu de 38 semanas, esse também não ia demorar. Ledo engano. Passamos as 38, 38+1, 38+2... O mantra diário era ‘Uma gestação saudável vai até as 42 semanas, uma gestação saudável, vai até as 42 semanas’.

Na madrugada do dia 07 pro dia 08 (quarta para quinta feira), umas 4 horas da manhã, acordei com contrações. Doloridas, mas suportáveis. 10 em 10 minutos, 8 em 8 minutos... como já tinha tido aquela noite de pródromos (nota: é o famoso “falso trabalho de parto”. É quando a mulher sente contrações mas que ainda não são o trabalho de parto ativo. Essas contrações de “falso trabalho de parto” vão amolecendo o colo do útero e podem fazer com que a mulher dilate alguns centímetros), nem me importei. 5 horas da manhã, 6 horas da manhã, 7 horas da manhã... sempre ritmadas, sempre doloridas. Leandro até saiu mais tarde para trabalhar, vai que engrena, vai que não.

Passei o dia inteiro assim. Desci com a Gabriela para brincar, fiz comida, dei uma limpada na casa. Queria ao mesmo tempo me concentrar no processo, no meu corpo... mas isso me deixava ansiosa, nervosa. Não era a hora ainda de focar, era hora de ficar relaxada... Tirei um cochilo junto da Gabi depois do almoço, mas a cada contração, eu acordava. Saí de tarde, para ir ao mercado, à farmácia e, na volta, as contrações apertaram. 5 em 5 minutos, durando uns 20 segundos. Minha sogra apareceu para tomar café com a gente, me distraí, conversei... foi bom, deu pra esquecer um pouco que eu já estava há 12 horas com contrações. E assim foi até de noite.  

Acordei à uma da madrugada (de quinta para sexta) com uma dor forte. Reconheci na hora que aquilo sim era uma boa contração. Não quis acordar o Leandro, já que queria ter certeza de tudo. Fui pra sala, fiz um pãozinho, comi. 5 minutos depois, outra contração. Me agachava, rebolava, respirava... nada como focar o pensamento na respiração, é um alívio tremendo. Depois de um tempinho assim, resolvi entrar no banho. Tomei uma bela e demorada chuveirada, no escurinho, aproveitando para relaxar a lombar, que era onde a contração mais doía. Água quente e respiração praticamente tiravam a minha dor. Saí do chuveiro e já não queria mais ficar sozinha. Fui acordar o Lê e vi que eram quase 3 horas da manhã. Daí até às 6 horas da manhã, nada mudou... contrações sempre de 5 em 5 minutos, durando 20 segundos, 30 segundos... eu andava, agachava ao máximo, vocalizava, rebolava, o Lê fazia massagem, me sustentava (lembro de uma hora dar risada comigo mesma, pq ele fazia massagem no meu pescoço e eu implorando por dentro para ele mudar para a lombar – mas na hora era simplesmente impossível falar alguma coisa, parecia que existia o Leandro, eu e um segundo eu, pensante). Ficar dentro de casa estava me sufocando, resolvi descer para andar no jardim do prédio. A irmã do Leandro tinha vindo para casa, para ficar com a Gabriela durante a madrugada, caso ela acordasse. Foi ótimo, porque realmente, parecia que dentro da minha casa já não tinha espaço suficiente para mim.

Perto das 6:30, comecei a me sentir bem estranha. Enjoada, hora com frio, hora com calor, pensando que não ia mais agüentar. Opa, peraí! ‘Isso é sinal da transição’ (nota: transição é quando a gestante passa de trabalho de parto passivo, até mais ou menos uns 6 cm, pro final do trabalho de parto, o trabalho de parto ativo, onde muitas gestantes descrevem a dor como “insuportável” justamente por se tratar já do final do trabalho de parto), eu pensava. Mas me parecia impossível! Já estar na transição, sendo que as contrações estavam ‘fracas’? Cadê as contrações de 2 em 2 minutos, 1 em 1 minuto, longas? Cadê a partolândia? Comecei a ficar assustada... pensava em parada de progressão, pensava que alguma coisa estava errada, que era melhor ir para a Casa de Parto e pronto. O Lê ouviu o coração do bebê (nota: a Ana e o Leandro compraram um aparelho específico pra ouvir os batimentos cardíacos do bebê afim de verificar possível sofrimento fetal e outras intercorrências), os batimentos estavam ok. Comecei a falar que estava ficando com medo, que achava que aquilo não era normal, mais de 24 horas e nada ainda? Ele me dizia que tínhamos que esperar, que eu tinha que ficar calma, que as coisas estavam indo para frente. Eu estava sim em trabalho de parto, que o bebê ia sim nascer... Começou a encher a banheira, dizendo que eu deveria entrar para tentar relaxar, pelo menos, mesmo que o trabalho de parto desse uma estacionada.

Mas não adiantava eu tentar relaxar. Eu precisava ter certeza de onde eu estava. Liguei para a Julia (doula), dizendo que estava preocupada, que achava que não estava engrenando, que já não tinha certeza se tudo estava bem. Ela sugeriu fazermos um toque, o que foi uma idéia brilhante. Desliguei e convenci o Leandro a fazer (acho que ele ficou meio traumatizado). Ele fez e tirou os dedos ‘na medida’ em que estava o colo. Quando eu olhei, até desanimei. A distância entre os dedos parecia pequena. Bom saber que o meu olhômetro é péssimo. Pegamos uma régua e tchanãn: 7 centímetros! Sim, sim, sim. Todas aquelas sensações que pra mim não faziam sentido na teoria, eram sim a transição. O problema agora era: quanto tempo mais faltaria para tudo acontecer? O Lê trabalha em escola pública e era dia de conselho de classe (quando os professores são convocados, não podem faltar, a não ser perante alguma justificativa. Ele só poderia faltar se o bebê nascesse). Ele disse que teria que ir trabalhar, para eu ligar pra ele que ele voltava. Liguei de novo pra Julia e pedi para ela vir ficar comigo, apesar de eu achar que tudo ainda demoraria muito.

(nessa hora a Gabriela estava acordando e foi pra sala brincar com a tia. Nem ligou pra mim, nem reparou no que estava acontecendo. Ficou brincando, tomando leite, como uma manhã normal)

Entrei na banheira preparada para mais algumas boas horas. 5 minutos, 10 minutos, 15 minutos... e começou uma contração como não tinha vindo até agora. Me senti realmente abrindo por dentro e junto com isso, um ‘ploc’ bem sentido. Quando a contração acabou, levantei e pude sentir toda a água saindo (coisa que eu quis muito, muito, muito sentir e senti!). O Leandro estava olhando com olhos bem abertos pra mim e me mostrou no relógio: um pouco mais de um minuto de contração. Ainda me falou que aquela contração ele conhecia pelo meu rosto: era a mesma do final do trabalho de parto da Gabriela. E desistiu de ir trabalhar.

Já não me lembro exatamente das coisas nessa parte. Sei que as contrações eram compridas e com pouquíssimo intervalo. Depois que a bolsa estourou, senti mais umas 4 contrações e já senti um leve puxo no final delas. Opa de novo! Já? Não, não é possível... acho que eu ainda não estou com dilatação total. Será que eu já estou, em tão pouco tempo? Lembrei da Lia, uma querida que participa de uma lista de discussão junto comigo, dizendo que informação técnica demais atrapalha. Lembrei dessa frase e ela fez todo o sentido pra mim na hora. Ora, se eu estou sentindo o puxo, então eu tenho que seguir o meu corpo, não importa se faz sentido ou não. Se está acontecendo, está acontecendo. Se entregar é o único jeito de deixar fluir...

E assim foi. Eu vocalizava bastante e conseguia sentir ele descendo pela minha bacia. Acho que a Julia chegou nessa hora. Ainda consegui falar no intervalo da contração de que estava com medo de fazer força e não ser a hora. O Leandro dizia que se eu estava sentindo vontade, que era pra fazer. Umas poucas contrações depois, comecei a sentir a cabeça coroando (nota: quando a cabeça do bebê começa a sair pelo canal vaginal). Era a melhor coisa sentir com as minhas mãos o meu filho chegando. A cada contração, eu aparava o períneo e ia sentindo a cabeça vindo, vindo, vindo... A Julia jogava água quente nas minhas costas e falava que estava tudo bem, que eu estava ótima. É impossível descrever a sensação de aparar o seu filho. Senti os cabelinhos dele e sorri, dizendo como ele era cabeludo. O Lê e a Ju riram comigo. Eu estava ajoelhada na banheira, com o quadril um pouco abaixado. O Benjamin já estava com a cabecinha para fora, dentro da água. Não sei quem sugeriu para eu levantar um pouco, ficar mais ereta. Sei que foi o tempo do Lê me sustentar, para que ele fizesse a rotação e desprendesse os ombrinhos. Foi mágico. Sentir o bebê se movendo dentro da gente, num ritmo perfeito para nascer é surreal. Ainda não tinha visto, estava de olhos fechados, sentindo tudo com as mãos, sentindo seus movimentos dentro de mim. Quando olhei para baixo, vi sua cabecinha e seu tronco para fora. Segurei ele pelos bracinhos e ele deslizou inteiro para a água e depois para o meu colo. Massageei suas costinhas um pouco e ele deu um chorinho baixo e logo parou. Olhos grandes, abertos e serenos, me olhando naquele quarto escurinho, com uma energia tão forte que era praticamente palpável. Que cheiro bom que ele tinha, um cheiro doce naquele cabelinho... e quanto cabelo!

Todo mundo parecia em transe: eu, o Leandro, a Julia, a minha cunhada... só a Gabriela que estava meio aérea e nem se ligou em nada. Não posso reclamar, era exatamente o que eu queria! Que ela ficasse conosco, passasse o trabalho de parto dormindo, que pudesse ver o irmão nascer, sem se assustar.

Fiquei um tempão (quer dizer, para mim pareceu um tempão, não sei ao certo) na banheira, lambendo a cria, rindo que nem boba e conversando. Ainda sentia contrações, sinal de que a placenta logo, logo sairia. Queria cortar o cordão somente depois da saída da placenta, mas estava complicado ficar confortável nas contrações e segurando o bebê no colo. O Lê então cortou o cordão, embrulhou o Benjamin nas toalhas e ficou namorando o filhote mais novo um pouquinho. A placenta nasceu uns 20 minutinhos depois, em duas contrações. Membranas ok, ela por dentro também estava ok. Parto terminado, levantei e fui deitar na minha cama e amamentar o pequeno, que estava bem alerta e gostou da coisa. O Lê saiu com a irmã e a Gabriela pra comprarem coisas para a gente comer e eu fiquei papeando com a Ju.

Queria ter muito filmado o expulsivo (nota: fase final do trabalho de parto, quando o bebê está pra nascer), mas não deu. Se não fosse a Julia, nem fotos nós teríamos! Quando entrei na banheira, entrei em outro mundo. E o Leandro mergulhou junto comigo nesse transe. Estava tão ou mais concentrado do que eu, o que foi divino. Sem ele, provavelmente eu não teria conseguido. Ele me guiou, me deu força, me encorajou e acreditou em mim, mesmo quando eu não acreditei. E eu não trocaria isso por nada nesse mundo. Sei que os detalhes ser perderão com o tempo, mas o sentimento de ser abençoada por passar por essa experiência nunca irá sumir. É algo que carregaremos pro resto das vidas.

por Ana Bárbara Moreira Rossato

7 comentários:

kelly disse...

Delicioso!

Catarina disse...

Tão tão tão lindo que dá até vontade de ter outro filho!!!

Wanessa Motta disse...

Lindoooooo ... parabéns pela coragem e determinação da família

marcos disse...

Oi, Aretha! Te peço uma ajuda: você tem o contato da Babi (a Ana Barbara aí do lindo relato :) ? Trabalhamos juntos há alguns anos, perdi o contato dela e preciso falar com ela urgente. Se você puder, por favor me escreva ou peça pra ela me escrever: marcosvisnadi arroba gmail ponto com. Bjs

Janice Lourenço disse...

Que lindo relato, parabéns!!!

Ana Rossato disse...

Meninas, será que seria possível retirar as fotos do post? Algumas fotos ficaram íntimas demais e prejudicam meu atual trabalho ;)

bjos

Ana

Raphael disse...

Oi Barbara, é o seu primo, preciso falar com você! raphacipolla@gmail.com