quarta-feira, 18 de abril de 2012

Meu filho não come!


A Aurora, desde sempre, é ruim de boca. Por volta de 1 ano, começou a dar sinais de seletividade: não queria mais comer banana, daí depois enjoou de maçã, não quis mais saber das uvas e no final das contas eu me peguei sendo mãe de um bebê que comia 2 grãos de feijão no almoço e duas colheres de arroz na janta e só. É, só isso. Eu fiquei louca, louquinha, pq na minha concepção ela ía passar mal, cair doente ou sei lá. Minha mãe surtou comigo dizendo que minha comida era ruim, que não tinha gosto e por isso ela não comia e até hoje é forte partidária pra que eu dê Mucilon e outras farinhas. O Lu tb começou a surtar e eu, que já sabia que isso podia acontecer, entrei no bonde e começei a me desesperar querendo dar vitaminas e mais tudo o que pudesse pra suprir a aparente falta de apetite dela. Minha mãe me pressionou até o cú fazer bico pra que eu desse alguma coisa pra abrir apetite e chegou a certo ponto que o assunto comida virou um tabu. O auge do estress foi eu tentar forçar a Aurora a comer uma banana e o Lu abrir a boca dela pra ela comer uma maçã. Alí eu ví que já tinha passado TODOS os limites do tolerável e que as coisas não podiam continuar desse jeito, afinal eu acho o ápice do desrespeito vc forçar alguém a fazer algo que ela/ele não quer.


Algumas amigas minhas de grupos de mães já haviam me falado que acontecia o mesmo com elas e tudo o mais, mas eu fiquei tão desesperada e foi tanta pressão que acabei esquecendo de tudo. Um dia tive uma crise de choro virtual e as meninas me recomendaram essa leitura: Mi niño no me come. Simplesmente foi o que salvou os meus nervos! Recomendo que toda grávida, toda mãe (mesmo que tenha um filho comilão) leia! Sério, muito melhor que aquelas merdas de "o que esperar quando se está esperando" e "encatadora de bebês" da vida. O Carlos González, pediatra e autor do livro, conta a história da introdução dos alimentos desde o começo do século e dá uma outra perspectiva pra introdução de sólidos e pra como lidar com esses problemas relacionados à alimentação no geral. Se não fosse por ele, eu teria piorado muito a situação ou então a Aurora já estaria comendo danoninhos da vida.

O Gonzélez defende que a gente respeite a criança. Simples, mas que muita gente não faz. Se ele não quer comer, é porque não tem fome! Criança nenhuma vai passar fome tendo comida à disposição pois a gente é biologicamente programado e tem o instinto de sobrevivência pra comer, mesmo que seja algo que a gente não goste, se a fome bater, comeremos até jiló.

Pautada nisso, parei pra pensar. Eu estava a meses tentando receitas novas e me preocupando com vitaminas e etc. Até uma disciplina de Nutrição Humana eu peguei na faculdade e elaborei um cardápio pra Aurora. Larguei tudo de mão e confiei. A gente passou a colocar ela no cadeirão com um prato com as mesmas coisas que a gente ía comer e deixar. No começo ela só fazia bagunça e não comia nada. Pra não dizer que não comia nada, ela comia duas colheres de arroz e só. Como eu percebi a predileção dela por arroz, passei a cozinhar o arroz com um pouco de quinua, que é um grão mega nutritivo. Aí ela começou na creche e o trem piorou de vez, e aumentou minha preocupação pq na creche ela não mamava (ficava só meio período). Passei a fazer uns biscoitos integrais com aveia, coco ralado, linhaça e outros grãos tb mega nutritivos e ela aceitava. Passamos a investir mais ainda numa alimentação saudável. Se não servia pra Aurora comer, tb não ía servir pra nós. Isso durou pelo menos uns 8 meses e ela assim, comendo igual passarinho e sempre mamando em livre demanda. O peso dela estacionou nos 9kg e pouco, mas a gente sempre levou na pediatra e ela nos confortava dizendo que era perfeitamente normal e que, se ela mamava no peito, não ía faltar nada pra ela. Por desencargo de consciência fizemos um exame de sangue que deu ótimo, ferro altissímo e tudo normal, e começamos a suplementar vitamina B12 (pq somos vegetarianos e essa é a única vitamina que não é encontrada no reino vegetal). Ela sentava na mesa e só fazia bagunça, comer que era bom nada. E a gente tentando ter paciência. Do nada, de ver a gente comendo, ela passou a comer algumas coisas, mas oscilava: uma semana ela comia direito, na outra só ciscava, e hoje continua assim, mas ela agora escolhe o que quer comer. Eu coloco sempre um prato com tudo o que a gente vai comer e a gente faz questão de fazer todas as refeições juntos, então ela nos vê comendo (o famoso exemplo) e passou a ter interesse por certos alimentos que ela não havia comido: provou repolho uma vez do prato da tia dela, comeu almeirão do prato do Lu, enfim, a gente sempre come o que queremos que ela coma. Esses dias atrás eu fiz feijã de corda e ela não quis provar nem sob decreto. Passei 1 mês colocando no prato dela, mas sempre sem oferecer e deixando ela brincar, até que anteontem ela provou e adorou! Assim temos feito com todas as comidas!

Agora, seria muito fácil mesmo me desesperar, continuar desesperada e passar a dar porcarias caso eu não tivesse informação de que isso é uma fase e que passa! Se eu não tivesse lido o González, ía estar me descabelando até agora. Outro dia eu ouvi a mãe de uma amiguinha da Aurora, que é nutricionista, dizer que colocava nescau no leite pq a filha não queria mais comer. Na hora eu pensei: "nossa, se ela tivesse lido o González ía saber que isso passa, que é fase e é perfeitamente normal". O medo que a gente fica deles estarem desnutridos, fracos e de pegarem alguma doença é tão grande que nos esquecemos do mais simples: criança com fome não recusa comida, porque é instintivo e biológico o ato de comer! Se ele não come, é porque não tem vontade, horas! O medo é um péssimo conselheiro, e nessas horas ficamos cegos e tomamos decisões equivocadas, porque veja, pra comer danoninho não precisa ter fome. Pra tomar um toddy, comer bolo e chocolate a gente não precisa ter fome, entende? A gente come porque é gostoso! E é muito fácil, quando a gente toma esse caminho de dar porcarias pq a criança não quer comer nada, acabar com os hábitos alimentares dos pequenos. Daí, anos depois, a gente se pergunta porque é que o fulaninho não come brócolis, porque é que só quer comer doritos e outros porcaritos, porque só quer refrigerantes... Vocês tão vendo o "na medidinha certa" do fantástico? Pois é, eu ando acompanhando e sempre me lembro do González falando "mas a bala e o salgadinho não foram parar sozinhos no prato da criança! Se ela tá comendo, é porque alguém ofereceu".

Nos auge da minha preocupação, eu nunca achei que fosse estar aqui hoje escrevendo esse post e dizendo: é fase, e passa! Hoje a Aurora come talos de brócolis do meu prato, alface, couve e outras coisas que teoricamente crianças não deveriam gostar. A gente sempre dá preferência pra alimentos que ela possa manipular sozinha e que ela possa "ciscar" tais como feijão, arroz, lentilha, ervilha, grão-de-bico cozido até ficar bem mole, milho, granola e outros. E mantemos a regra de: se não serve pra Aurora comer, também não serve pra gente comer. O Lu tomava coca-cola e comia bolacha recheada todo dia, e eu sempre comia um chocolate ou coisa do gênero. Paramos. Ele só toma coca de vez em quando, e eu tb só como chocolate raramente, e sempre comemos as porcarias quando ela tá dormindo pra ela não passar vontade. Ainda estamos na batalha pra ela comer frutas, pois já tem bem uns 6 meses que ela não anda querendo, mas eu sempre sento no chão na altura dela e como a minha fruta de lanche. Algumas vezes ela pede, na maioria não quer nem experimentar, mas eu não forço e espero ela ter vontade, pq eu percebi que das vezes que eu tentei forçar só piorei o negócio. Estamos agora investindo em alimentos como castanhas, granola, iogurte natural sem açúcar, uva passa (que ela recentemente enjoou) e outros. Claro que ainda tem muito o que melhorar e que a gente ainda precisa oferecer mais frutas e pans, mas só de saber que é uma fase e passa já dá um puta alívio, e que não, eles não morrem de fome nem de inanição! Graças a deus o danoninho passou longe daqui de casa!

Minha amiga Clesia, que também compartilhou do mesmo drama que eu com seu filho Arthur, esses dias me escreveu dizendo que Arthur agora aos 2 anos é o maior glutão! Me disse que acorda de magrugada pra comer, repete todas as refeições e não quer saber de comer porcarias (e olha que Arthur foi um pouco pior que Aurora, porque desde o 1 ano e pouco se eu não me engano ele passou a recusar comida e ficou quase que exclusivamente no peito). Outras amigas minhas também me relataram o mesmo: com certa idade, a criança passa a aceitar melhor a comida e a diversificar mais os pratos, porque afinal de contas a curiosidade de experimentar coisas novas é inata das crianças, basta não forçar!

Agora, se teu filho tá com falta de apetite é bom investigar as causas antes de apelar pra farinhas, remédios que estimulam o apetite e etc, pq pode ser tanta coisa... Pode ser fase, pode ser verme, infecção urinária e uma outra série de fatores. Aurora fez exame pra tudo isso, e quando descartamos todas as possibilidades de doença foi que paramos de forçar. Foi imprescindível a realização desses exames pra gente não negligenciar alguma possível doença. É bom sempre ter em mente que uma alimentação saudável e sem excessos previne doenças tipo diabetes, hipertensão e outras.

Também acho bom ressaltar que criança que mama no peito geralmente tem um ritmo de engordar muito diferente das que tomam mamadeira, e que o fato de mamar leite artificial está diretamente associado a doenças como obesidade infantil e diabetes. Criança que mama no peito engorda mais devagar, mais paulatinamente e perto de 1 ano, 1 ano e pouco o peso estaciona mesmo e é perfeitamente normal. Dar mucilons, farinha láctea e outros produtos "desses de criança mesmo" é uma ótima maneira de contribuir pra uma futura alimentação ruim do seu filho. Lembre-se sempre que ele não vai passar fome tendo comida disponível e que, apesar da pressão das avós, vc está fazendo o certo em não oferecer as porcarias que todo mundo dá e está contribuindo pra um filho saudável e livre de muitas das doenças que atacam a maior parte das crianças. A recompensa depois é um bebê que rouba couve do prato dos outros e que come muito bem, obrigada! :D

E pelo amor de deus, não faça com o seu bebê aquilo que você não quer que façam com você. Até hoje eu me arrependo de ter forçado a Aurora a comer algo que ela não queria! Não é justo e é completamente desrespeitoso esse tipo de atitude, porque afinal de contas, como é que vc se sentiria se alguém enfiasse uma colher cheia de algo que você não gosta na sua boca repetidas vezes?

4 comentários:

Cíntia Anira disse...

Caramba, que relato de superação! Admiro sua persistência e principalmente, a sensibilidade e o respeito. Parabéns por ser uma mãe consciente! Seja bem-vinda a Minha Aquarela! Muito bom saber que você 'saiu da moita'! :D

Beijo grande

Júlia Vaz Tostes disse...

Ótimo esse post Aretha!!! Muito bom mesmo, parabéns pela persistência e respeito com a pequena!!!!

Clésia disse...

Parabéns, Aretha!! Mto orgulhosa de ver você falando assim!! É uma fase mto difícil mesmo, e como você bem citou, tbm passamos por ela aqui. Mas como é fase, sempre passa!! Mas é bom sabermos que é fase. Todas as mães e pais deveriam ler González!! Um bjão

Cinthya rodrigues disse...

Olá,descobri seu blog hoje e adorei. É muito bom quando agente encontra alguém que compartilha das mesmas idéias. Tenho um bebê de 8 meses, prestes a fazer 9. E eu estou na mesma fase desse post. Sinto que preciso de ajuda, estou cheia de dúvidas e não quero ceder a pressões.