sexta-feira, 9 de março de 2012

o tal do 8 de março e o grito


Daí que eu ando puta, mas puta mesmo.

Começou com uma irritação sabe-se-lá-deus com o que. Achei que fosse TPM, finalmente depois de 2 anos sem menstruar. Não era e continuou a crescer, como um monstro dentro do meu peito, uma sensação de náusea, vômito e impotência. Aí começei a enxergar as coisas de um outro jeito e, pra meu desgosto, além de só ver, começei a olhar pras coisas e enxergar o que elas eram de fato. Sabe aquele almoço de domingo que a sua avó cozinha enquanto todos os homens da casa estão bebendo cerveja? Pois é, aquilo pra mim passou a ser insuportável, beirando o absurdo.

Aí eu casei. Casei e o meu marido tem uma família muito tradicional mesmo. A maior parte das mulheres ainda fica em casa com os filhos enquanto os homens trabalham. Ok, se funciona pra eles, eu não tenho nada haver com isso, mas sempre me entristeceu saber que algumas mulheres (não é o caso delas) são obrigadas à isso, não tem escolha (é só ir em qualquer interior do Brasil pra constatar), ou quanto tem "opção", depois tem que enfrentar uma jornada tripla: trabalho + cuidados com a casa + cuidar dos filhos, enquanto o homem lá, com o bundão sentado no sofá e bebendo cerveja. Eu não queria isso pra mim, nunca quis. Mesmo o Luciano tendo veias feministas, as vezes ele ainda se esquece de como as coisas são e se pauta no sistema vigente: o patriarcado que impera. Acho que isso melhorou bastante desde que tivemos a Aurora (imagino que ele queira dar o exemplo pra ela de uma família em que há divisão de tarefas), mas ainda está longe do ideal.

Parei pra pensar e ví que da mesma forma que o sistema é opressor comigo, é opressor com ele: homens não choram, homens precisam sustentar toda a família, homens tem que fazer todo o trabalho duro, carregar coisas pesadas e não podem ser emotivos. Homens tem que ser poços de força bruta, sem direito à fraquezas. Homem não fica em casa pra cuidar dos filhos (por mais que alguns queiram desesperadamente essa função), aliás, homem nem cuida dos filhos (já viu a licença paternidade? CINCO dias! como é que alguém espera que se conheça o próprio filho em cinco dias?).

Hoje eu decidi que pra mim chega! Não, isso não funciona pra mim. Não, não tenho saco pra isso e não, não vou mais compactuar e sim, estou aprendendo a ser leoa. Por muito tempo a loba em mim esteve adormecida, submissa embora sentido-se injustiçada, cativa e dócil. Mas hoje não. Hoje eu acordei com uma vontade louca de gritar aos quatro ventos que sou livre! Sou livre e tão boa e capaz quanto qualquer homem. Que não mais aceitarei convenções sociais que de nada me favorecem! Não aceitarei o cabresto que tentam me colocar desde sempre. Não me curvarei diante de nenhum homem, não aceitarei piadas sexistas e vou comprar briga sim, doa a quem doer.

A loba em mim uiva, como que num chamado interior de algo que se encontrava profundamente adormecido. Uiva cada vez mais alto, e cada vez mais indignada. Uiva, convidando as outras lobas a fazerem parte da matilha e lutarem, lutarem com as armas das mulheres e ajudar a cada uma de nós a se libertar.

2 comentários:

Lorraine disse...

estou lendo o livro "as mulheres que andam com os lobos" mas o que me fez despertar ainda mais em mim essa loba foi Laura Gutman.

Me emocionei com o que escreveu, é bem isso o que sinto, é bem isso o que muitas mulheres sentem e algumas nem mesmo reconhecem isso.

beijo

Maíra disse...

Eu me sinto exatamente como vc. Sabe, às vezes fico simplesmente puta de raiva com algumas situações, e a sensação que dá é que sou um ET nesse mundo. Lembro perfeitamente uma vez, quando eu era adolescente, que também me revoltei porque no almoço de Domingo na minha avó os homens não faziam nada. Desde criança essas coisas sempre me incomodaram muito. E se a gente parar pra pensar, em cada detalhe do dia a dia, da mídia, de TUDO, tem algo de machista. TUDO!

Bom, eis aqui outra para entrar na sua matilha!

Bjos!